sábado, novembro 8

Relato de entrevista - em abril de 2008

Como muita gente perguta como foi, taí o nosso relato de entrevista (super longo) tal qual enviado para a lista de discussão do yahoo.

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Estávamos especialmente ansiosos para a entrevista. Nosso timeline é bem atípico, com direito a adiamento de entrevista, e contribuiu pra aumentar o nervosismo.

Meu marido de terno e gravata, eu de terninho de linho, chegamos os dois uma hora mais cedo. Eu sou a aplicante principal. Fomos recebidos com um bonjour e encaminhados a uma salinha de espera.

Eu, à beira de um surto psicótico, e o marido falando sozinho pra treinar o francês, ouvimos a moça da recepção atendendo a um telefonema hilário: um sujeito queria saber se podia mudar a data da entrevista. Ele queria antecipar e ouvimos a moça respondendo bem indignada: “não senhor, no Canadá são direitos iguais pra todos e não tem nenhuma taxa q o senhor possa pagar para acelerar o processo”. Serviu pra gente descontrair.

Às 14h30 em ponto aparece o M. Leblanc, trocamos bonjours e enchantéS e o seguimos ao escritório.

Mesa enorme, na hora ficou claro q esparramar os papéis não ia ser um problema. Tiramos o mapa do tubão de arquiteto, o colocamos na mesa e fizemos aquela cara de paisagem. Silêncio. Alors... Começamos já falando q havia alterações a fazer na Demande de Certificat. Ele: pas de problème. E não teve mesmo.

Começou o ritual de conferência de papelada: passaporte, estudos, trabalho. No meu caso, na experiência mais antiga, havia um lance na carteira de q eu nem lembrava mais, q foi uma mudança de CLT para estatutária (funcionária pública). Sorte que eu lembrava onde estavam as anotações e, como fica td na mesma pasta há anos, estavam lá as publicações no Diário Oficial. Deu trabalho pra explicar, mas ok. Tb acrescentei minha experiência como voluntária em assessoria de imprensa de uma ONG de proteção animal aqui da cidade. Ele olhou o certificado mas não digitou nada não. Perguntou se eu sabia da Federação de Jornalistas, expliquei que sim, falei q era meio parecido com o Brasil, só q ainda mais flexível. Mostrei minha carterinha de jornalista sindicalizada daqui e falei q vou pedir a da federação internacional.

Na vez do marido, o erro tinha sido na hora de preencher, e tínhamos colocado tempo a mais de experiência. Sem problema, ele aceitou a redução no documento.

Fomos para as comprovações de idiomas. Dei pra ele meu DELF B2 e minha matrícula no Avançado III da Aliança. Pediu os meus de inglês, entreguei minha coleção (Cambridge, City & Guilds, Ielts, Toefls, GRE) e ele exclamou u-la-la. Começamos a nos sentir em casa.

Daí meu marido entregou as matrícula de francês dele e explicou q evolui do 'niveau zéro' pro 'niveau un'. Foi a vez do M. Leblanc desopilar o fígado: se acabou de rir do niveau zéro. Depois de tirar uma onda, o Zé (marido) perguntou se ele não queria ver o de inglês. Monsieur Leblanc perguntou se era no mesmo nível de Madame (eu) e o Zé (pequeninho...) disse q não mesmo. E entregou o certificado de avançado da escola de inglês. Monsieur Leblanc disse q não era importante.

Enquanto ele digitava e digitava, fazia umas perguntas. Pq o Québec? Expliquei sobre a minha origem francesa e que me sentiria bem em um lugar com essa herança cultural e ao mesmo tempo com o dinamismo da América do Norte. Disse q não era bem o Canadá q eu queria e mais o Québec mesmo. O Zé disse q ia até pra China atrás de mim.

Expliquei q outra mudança era a ville de destino. Tinha colocado Laval mas teríamos de optar por Montreal, por conta do mercado de trabalho pra minha profissão (jornalista). Ele concordou.

Ele pediu pra ver as minhas ofertas de emprego. Mostrei algumas (tem bastante em sites específicos de comunicação, não nos estilo catho). Disse q eu sabia das limitações de idioma e mostrei – a pedido dele - várias outras opções, de atendente de vídeo-locadora a recepcionista. Expliquei q minha estratégia vai ser tentar entrar no métier, de qualquer jeito, fazendo café, arrumando cabelo, fazendo maquiagem (comecei como assistente de produção) e lá dou um jeito de mostrar como sou boa.

Ele perguntou se eu não tinha medo, já que teria de voltar pra base da pirâmide. Disse q não e contei a história do meu pai, que ao 50 anos perdeu tudo e teve de começar do zero. Mesmo sendo um profissional ultra bem qualificado, competente e tals, foi uma humilhação, já era 'velho' pra conseguir emprego, tinha de ganhar saco de batata de parente. Eu tinha 15 anos e comecei a trabalhar. Falei que não tenho problema pra recomeçar pq estou ciente de q isso pode acontecer aqui no Brasil: daqui a 10 anos serei ‘velha’ tb, já com 40 anos. Melhor recomeçar agora, no Canada. Aliás, quero fazer meu doutorado e aqui no Brasil não é bom negócio, diminui a empregabilidade.

O Zé mostrou as vagas dele (nada megalomaníaco, aliás) e o M. Leblanc começou a pedir as certificações de que ele tinha as competências exigidas, como o SQL, etc, etc. Meu amor se embananou todo mostrando as telinhas dos programas q ele desenvolve, e lá fui eu explicar, q mtas das exigências eram pré-requisitos da graduação em si, e se ele não soubesse, nem trabalhar tava trabalhando.

Qdo fui falar dos apartamentos pesquisados, mostrei q só tínhamos olhado apês que aceitavam cães. Mostrei tb os hotéis q aceitavam pets. Ele ficou impressionado. Foi a deixa pro papo descambar. Mostrei foto do Leopoldo (um vira-lhasa), conversamos sobre nós morarmos chez lui, e não ele chez nous. Ele falou gostou de 2 gatos q viu numa feirinha de adoção, batemos maior papo, falamos sobre o respeito q os canadenses têm para com os animais, sobre a ignorância dos brasileiros q não castram seus bichos.

Pediu pra ver o mapa e daí então ele foi à loucura. Perguntou onde conseguimos, explicamos q na internet e daí imprimimos. Perguntou se a impressão fora feita no Brasil mesmo. Modéstia à parte, tava bonito à beça nosso mapa gigante, cheio de adesivinhos coloridos pros apês, hotéis, federação de jornalismo, universidade, veículos de comunicação, locais de reunião do vigilantes do peso (q freqüento, e expliquei q vai me ajudar na adaptação alimentar)...

Voltamos a falar do Leopoldo (q aliás, por tabela, tb foi aceito pelo Québec) e falei de todo o processo necessário e custos. Mostramos, inclusive, q o nosso orçamento pra duas pessoas passava um pouco da média pq incluímos o au-au. Entre risadas, ele fez uma cara de quem tinha esquecido de algo, e disse q havíamos sido aceitos pelo Québec. O Zé, tadinho, com maior cara de paisagem, perdido q tava no papo, quase começou a chorar.

Muitas félicitations, muitos elogios pelo nosso projeto très fort, elogios à apresentação, recomendou a equivalência dos nossos diplomas, q era melhor não mandar pelo correio não, mas deixar pra fazer lá. Deu a papelada, explicou umas coisas e au revoir.

Fomos embora alucinados, despencamos pra Guarulhos e caímos no chopp.

Gente muuuuuito fina esse M. Leblanc.

By Clau

2 comentários:

Jeanne disse...

Sabe que até hoje eu não entendo por que só tem a entrevista para o processo para Quebec?
Se o pessoal da parte anglófona fizesse a lição de casa (como vocês fizeram), teria muito menos genrte decepcionada ao vir para cá.
E quando o M. Leblanc fala em recomeçar é recomeçar MESMO. Do zero!!!
Eu por exemplo, nunca tinha comprado panela na minha vida. Cheguei aqui e tive que comprar. rsrsrsrs Mas claro que isso é o de menos.
O recomeço é difícil, mas é bom. É um "renascimento".
Bjs

Clau e Zé disse...

Hmm, me lembraste de um texto lindo, do Hermann Hesse:

"O pássaro luta para sair do ovo. O ovo é o mundo. Aquele que nasce deve destruir um mundo. O pássaro voa até Deus. O nome desse Deus é Abraxas."

Eu penso que termos (todos nós, emigrantes) escolhido recomeçar nos faz diferentes... A maioria das pessoas recomeça à força...