segunda-feira, julho 20

Diplomas, reembolso de tradução e o Emplois-Québec

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Essa semana foi como uma jornada pelo processo kafkiano, daqueles de acabar com o bom humor de qualquer um. Compatilho com vocês alguns dos meandros burocráticos do Québec (já aprendi que aqui não dá pra falar Canadá porque ofende).




Equivalência de diplomas

Resolvi dar entrada no meu pedido de equivalência de diplomas. Isso foi depois de perceber que, pra boa parte dos cursos de caráter técnico, as instituições exigem esse papel (obs.: as universidades, por sua vez, geralmente não pedem isso não, e fazem a equivalência do jeito delas).

Lá fui eu pro MICC. Documentos necessários:

  • Diplomas e históricos originais;
  • Traduções juramentadas originais;
  • Documento de identidade (só valem PR Card e passaporte);
  • 105 dólares (aceitam cartão de crédito);
  • Formulário completo (dá pra baixar aqui)

Tava cheio mas até que foi rápido, coisa de uma hora. Eles tiram cópias dos documentos todos, não é necessário levar cópia pronta. Duro é aguentar a falta de educação do povo do atendimento. Quando dei entrada nos procedimento, a ridícula que me atendeu (digo ridícula pra não dizer vaca, porque vaca é um bicho legal) era cheia de sarcasmo, toda nervosinha. Olha, o sangue ferve só de lembrar. Pra qualquer coisa que perguntasse, a cretina respondia que não fazia “aucune idée”. Nos finalmentes, abri meu sorriso mais simpático e soltei um “Merci madame, vous êtes très très gentil”. Ela deu uma arregaladinha dos zóinhos. Que ódio!

Daqui a 45 dias, com a força e a graça de René Levesque, fica pronto meu bendito documento.

CLE, Centre Local d’Emplois

Para ter acesso aos serviços do Emplois-Québec, a gente tem de abrir o dossiê em um dos CLE distribuídos por várias regiões da cidade. Pra ver onde você deve ir, basta colocar o code postal aqui.

Se você tiver sorte e não for parar no CLE do Côte-des-Neiges, talvez não passe pelas mesmas desventuras que eu: consegui começar a ser atendida na quarta vez em que fui lá. Até abaixo-assinado eu assinei, pra dar uma idéia do drama.

Seguinte: o horário oficial do negócio vai das 8h30 às 16h30. Mas se você quiser uma audiência, vai ter de chegar lá pelas 7 da manhã e se plantar na frente da porta. Isso porque lá pelas 9h é comum colocarem um papel nos guichês dizendo que não há mais conselheiros em emprego disponíveis no dia. E sem o tal conselheiro não se consegue nada. Depois do primeiro encontro, fica tudo mais tranquilo. É só ligar e pedir o rendez-vous.

Detalhe importante: vá bem informado sobre o que deseja solicitar. De preferência, leve tudo impresso. É prática comum aqui o funcionário dizer que tal coisa não existe, que não é com eles, quando é sim.

É no Emplois-Québec, aliás, onde se pede o tal assurance sociale, mas já adianto que nem perguntei sobre o assunto. Meus interesses eram dois:

a) Cursos financiados pelo Emplois-Québec: são muitos e de nível técnico e colegial.

Detalhe 1: o Emplois-Québec paga tudinho, mas não dá bolsa. Dá pra entrar na assurance social, mas não quero isso não. Não sei se é lenda urbana, mas todo mundo fala que isso suja legal o currículo e atrapalha o histórico de crédito. No meu caso, estou achando mais interessante socilitar o prêt-bourse em outras modalidades de cursos. Ah, e não, não dá pra pedir bourse quando o Emplois-Québec tá pagando o curso pra você.

Detalhe 2: um dos cursos pelos quais me interessei tem as inscrições agora em agosto. O problema é que, na data, minha equivalência não estará pronta. Me lamentei pra minha conselheira e ela disse que é possível o Emplois-Québec enviar uma carta ao MICC pedindo urgência no processo. Isso eu achei bem legal.

b) Reembolso da tradução.

Isso já tava virando quase lenda urbana também. Ninguém parecia saber nada sobre o assunto, inclusive a ilustre senhora que mencionei na primeira parte desse post.

Acontece que eles fazem o reembolso das traduções juramentadas (desde que feitas aqui, e que no meu caso custaram 300 dólares) se elas forem usadas em uma das duas situações abaixo:

  • obtenção de um emprego em que a equivalência seja condição sine qua non. Exemplo: profissões com ordem, ou emprego em cargo público;
  • inscrição em uma formação profissional patrocinada pelo Emplois-Québec (não, com prêt-bourse não vale).

Ou seja, no donuts for you, Claudia…

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No dia do amigo, uma grande perda na família

 

Essa semana, deu no G1 uma matéria sobre os “imigrantes de luxo do Canadá”. Como esse blog não é só pra falar de coisa boa, queria então deixar uma mensagem pra quem ainda tá resolvendo se pica a mula ou não.

Ficar longe da família é barra. A gente costuma pensar que vai sofrer a falta das pessoas principalmente nos dias de celebração: aniversário, natal, etc. E quando morre alguém? E se não der pra pegar o primeiro avião pra ficar junto?

Hoje faleceu um dos primos do Zé, o Ricardo, 33 anos. Foi em Porto Alegre. Um dia muito triste…

segunda-feira, julho 13

Atenção mulherada: cabeleireiro recifense em Montréal

O que é o destino, não é mesmo? Estava eu saltitante pelos corredores do Cégep Saint-Laurent, onde fazia minhas aulas de francês, numa manhã gelada de primavera quando uma criatura de exuberante alegria esbarra em mim na fila do bebedouro. “Pardon”, disse ele, com um certo sotaque arretado, e na hora matei a charada: “Brasileiro e do nordeste não é?”.

Ficamos amiguinhos imediatamente. Will é tão fofo que até o coração do Leopoldo ele já conquistou. E, mulherada do meu Brasil, é um cabeleireiro de mão cheia e de preços ultra-compatíveis com a vida real.

Hoje, finalmente, tirei de meu visu aquela cara de imigrante pobre recém-caída do caminhão de batatas, a qual só cinco meses sem cortar os cabelos podem me conferir. Saquem as fotitas da minha tarde fashion:

Para contato, aí vão as coordenadas de Wil (que só pode atender sábado e domigo):

fone: 514-661-4781
blog: http://cabeleireirobrasileiroemmontreal.blogspot.com/

Continuação (add em 5 de agosto):

Will também fez em mim algumas mechas, e A-M-E-I o resultado. Fora a escova, q ficou um luxo...


sábado, julho 11

I’m broke but I’m happy, I’m poor but I’m kind

Dica pra imigrante que ainda não tá frouxo na parada: dar uma passadinha na Mission Bon Accueil. Eles têm ‘só’ 116 anos de existência e oferecem vários serviços aos recém-chegados. Vou falar dos que eu conheci essa semana, mas saibam que eles têm mais coisas, como alojamento e serviço à infância. Para usufruir dos programas, basta ligar lá e marcar um rendez-vous para abertura de dossiê: 514 523-5288

1) Doação de colchões

Não peguei nenhum colchão pra nós, mas dei uma conferida pra poder contar depois. Dentre os que vi, tinha muito colchão inteiraço, limpinho mesmo. Eles dão de presente pra quem precisar, mas o transporte fica por conta de cada um.

2) Boutique

A lojinha de roupas tem coisas usadas e novas, a preços camaradas. Quando você abre o seu dossiê, eles dão um vale, com valores diferentes dependendo do tamanho da família, pra usar na boutique. Fui achando que não ia ter nada muito interessante, mas me impressionei. Tem muita coisa nova doada por empresas, como camisetas promocionais, por exemplo. Eu peguei pra mim um roupão de banho liiiindo, ultra fofão, bordado, novinho zero-bala, ainda com a etiqueta da loja apontando o preço original de 55 dólares. Se eu fosse pagar, na boutique tava a 9.90. Mas como usei meu ticket, não paguei nada.

3) Rango

A entrega de “cestas” de alimentos acontece a cada 15 dias para as famílias cadastradas. Fui confiando na minha amiga Flavinha que me disse que vinha bastante coisa legal. A entrega começa às 9 da manhã mas, sabendo que pobre que é pobre chega cedo, fui às 8h30. A fila já estava dando volta. Enquanto esperava, conheci um brasileiro com quem comentei que quase não havia conterrâneos ali. Ele me falou que tem sim, bastante até, mas brasileiro costuma ser mais discreto, envergonhado até, e não fica alardeando a presença na fila da caridade.

Desavergonhada que sou, conto pra todo mundo no blog hehehehe.

Vamos ao que interessa. Saí de lá às 10 horas, com uma mochila e uma sacola grande super pesadas, contendo, entre outras coisas: pudim de baunilha, pão integral, pão branco e bisnaga, croissant, pão doce, molhinhos de salada, macarrão, salmão, chá verde engarrafado, cebola, batata, repolho baby, presunto, etc.

Fala sério: onde que no Brasil pobre ganha salmão, croissant e presuntinho?

Verdade seja dita: quando eu e o Zé estivermos trabalhando, não vamos mais pegar essas cestinhas básicas, até porque passar a manhã em fila é bem coisa de desempregado. Mas, bem, como explicar a sensação…? Quando eu era uma jornalista/professora universitária conhecida e respeitada (chique né), lembrava com muito carinho da minha fase de estudante dura, se ferrando pra pegar ônibus, trabalhar, estudar, namorar, festar e beber, tudo ao mesmo tempo. Quando eu era novinha, não fazia idéia de que me sentiria assim sobre a vida que estava vivendo quando o futuro chegasse (era feliz e não sabia / a gente era pobre mas se divertia). Bem, hoje estou praticamente no mesmo ponto onde estava 10 anos atrás, (re)começando do zero, (re)construindo minha vida (claro que sem o mesmo metabolismo que emagrece pra caber no vestido em uma semana e que se recupera das cachaçadas só no chazinho). A diferença é que, agora, tenho a mais perfeita noção de que sou extremamente feliz, estou onde desejo estar e, faça chuva ou faça sol (ou faça neve – carregar compras na neve é um terror), vou lembrar de toda essa loucura com muito carinho…

E agora… com AVON!!!

Mais uma novidade na linha proletariado-feliz: agora sou uma linda representante AVON. O mulheredo querendo comprar batons, esmaltes e creminhos já conhecidos, pode falar comigo. Os precinhos, que nem no Brasil, também são bem camaradas…

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segunda-feira, julho 6

Eu não consigo ser alegre o tempo inteiro

Desculpem os que só lêem o Q u e b e C o i s a pra saber detalhes técnicos sobre a imigração, mas esse é mais um post sobre cachorros. Afinal de contas, tenho de explicar o porquê do sumiço nessas paragens...

Bem, fazia tempo que não escrevia porque estava super deprimida e sem a mais remota vontade de escrever. Pra quem tá chegando agora por aqui, uma informação vital: amo cachorros. Adoro bichos em geral, e cachorros são meus favoritos.

Na vinda pra cá, deixamos uma cachorrinha pra trás, a Ilsa. Ela é super frágil, e toma um medicamento que é pra vida toda. Até descobrir um veterinário que topasse continuar receitando os remedinhos dela por aqui, achamos que seria mais prudente deixá-la com a vovó. Afinal, na casa dos meus pais o esquema é bilu-bilu, dormir na cama ou no sofá, comidinha quentinha e quintal grande. Vidão.

Então, eis que roubaram a Ilsa. Mas não se engane, não se trata de um cão de raça e sangue azul. Ela é super vira-lata, achada no lixo quando bebezinha, sobrevivente de várias rodadas de antibióticos para as muitas e muitas doenças adquiridas durante seu passado sombrio. A certeza de que foi levada de propósito é que ninguém ligava pra dar a notícia de ter achado uma cadelinha pequenina de vestido verde de frio. Sim, ela tem medalha com nome e telefone, além de chip implantado.

O desespero durou 18 dias. Eu nem falava com meus pais nos messengers da vida pra gente não começar a chorar. Meus pais moveram o mundo pra encontrá-la. Amigos ajudaram de várias formas. Saiu no rádio, na TV, no jornal, pra não falar em todos os recursos possíveis na internet. Finalmente alguém ligou a cobrar e perguntou se era verdade que tinha recompensa. Ilsa foi devolvida sem nenhum arranhão, pra alegria de todos. Ela ainda usava a medalha com o nome e telefone.

A outra boa notícia vai em homenagem ao cachorrinho do post anterior, o falecido Mocinho. Foi chegar a Ilsa de volta em casa, e minha mãe percebeu que a outra cadelinha dela, a Mel, está grávida. Adivinhem quem deixou herdeiros, a despeito da idade avançada? Isso mesmo, o pequinês safado, o velhinho Mocinho. Falei pra minha mãe que isso tá parecendo novela, com reviravoltas e finais felizes.

Em tempo

Terminei o francês e agora vou atrás de emprego. Duvido muito conseguir algo como jornalista, por causa do francês. Pra qualquer outra área meu francês estaria bom demais (estudo esse negócio há anos, e não só pra vida de imigrante), mas pra trabalhar em redação... Bem... O buraco é mais embaixo... Outras áreas de comunicação, como marketing, por exemplo, que me parece ter um bom espaço por aqui, eu detesto. Assim como publicidade. Acho que vou mudar de área, pelo menos temporariamente, coisa que eu já imaginava que iria acontecer, mas não sei pra onde vou. Estou me sentindo com 16 anos de novo, resolvendo o que vou ser quando crescer.