sábado, setembro 19

Xingando em francês québecois

 

Boca suja ou não, sempre é bom saber quais são as palavras e expressões ofensivas em um idioma diferente. Você pode até não desejar a intenção de ofender ninguém, mas com certeza vai querer saber se estão te chamando de imbecil ou coisa pior por aí.

As ofensas no Québec são a coisa mais bizarra do mundo, soando estranhas até para ouvidos ateus como os nossos. Por exemplo, Cristo e Virgem são termos sacros nas culturas cristãs, certo? Aqui, se transformam em palavras muito feias para se dizer entre pessoas educadas, assim como outros termos oriundos da ritualística católica.

Ontem peguei na biblioteca um dicionário intitulado “Parlez-vous Québécois?”, de Claire Armange (D’Orbestier, 2007). Fui direto nestes verbetes mais interessantes, e compartilho aqui as definições científicas da coisa:

Crisse (Cristo, em português):

(religieux Christ) juron religieux, blasphème. Crisse de bâtard, d’épais, de chien sale, etc. “Touche pas à ça mon crisse!” “Vite crisse on va manquer le début du film” “C’était crissement poche comme film” (c'était nul ce film). Le sacre québécois étant à multiples facettes, il peut aussi se faire amplificateur de compliment: “T’es belle en crisse” (c’que t’es belle!). Se mettre en crisse: se fâcher, se mettre en colère. Oreilles de crisse: grillades de lard salé, plat typique de la cabane à sucre. Graphie plus rare: oreilles de Christ. Un p’tit crisse: personne dont il faut se méfier, qui n’est pas fiable, qui fait ses coups par en dessous, pas franc, qui trompe son monde. Proverbe: “mieux vaut être un bon yâb qu’un p’tit crisse” (mieux vaut être un bon diable qu’un petit hypocrite”.

Crisser (também Cristo, só que usado como verbo):

(religieux Christ) juron utilisé en verbe. Exprime généralement une certaine violence, comme quand un Français dit “fous-moi la paix” plutôt que “laisse-moi tranquille”. “Crisse ça là” (fous ça là). “Y m’a crissé dans a bouette” (il m’a poussé dans la boue). “A m’a crissé là” (elle m’a quitté). “J’ai envie de toute crisser ça là” (j’ai envie de tout planter là). “Quessé tu crisses?” (qu’est-ce que tu fous?). S’en crisser: s’en foutre. “Je m’en crisses-tu de c’qu’eux z’aut’pensent!” (je m’en fous de ce que pensent les outres). Crisser dehors: congédier vertement, foutre à la porte.

Viarge! (Virgem, em português):

(religieux vierge) juron, blasphème. “Voyons, bout de viarge, vas-tu finir pour accoucher qu’on baptise?” (alor, bon dieu, vas-tu finir par dire ce que tu as à dire?). “Awèye viarge de bon yeu, dépêche-toé!” (allez bon sang de bon dieu, dépêche-toi!).

Hostie, ostie (significa hóstia, e é um jeito muito comum de praguejar):

(religieux hostie) juron, blasphème. Sans doute le sacre le plus utilisé. “Hostie qu’il fait chaud” “C’est lourd en estie” “Une astie de grosse araignée sale!”

Câlisse (cálice onde vai a hóstia; usado mesmo pra ofender feio):

(religieux calice) juron, blasphème. Sans doute le sacre le plus utilisé après hostie. “Je m’en câlisse ben gros” (je m’en fous complètement) “J’ai reçu une câlisse de roche dans a face” (j’ai reçu un putain de caillou dans la figure). Câlisser: Foutre. “J’va t’en câlisser une” (je vais t’en foutre une, sous-entendu râclée, claque ou poing dans la figure). Quand un Québécois parle de vous câlisser quelque chose, il est vraiment temps de déguerpir!

Tabarnak (tabernáculo, onde vai o cálice com a hóstia; o mais feio e ofensivo de todos os xingamentos)

(religieux tabernacle) (très très grossier) juron, blasphème. “Aweye mon tabarnak, viens icite crisse de bâtard, mâ t’sacrer dans l’banc d’neige” (allez enculé amène-toi sale bâtard, je vais te foutre dans une congère!) Sans doute le sacre le plus important et le plus apprécié, de par sa sonorité qui claque et permet un soulagement de la colère efficace. Il semblerait qu’on le réserve pour les grands occasions, les vraies rages, en ultime défouloir. Si, avec la plus grande inconscience, il vous prenait de vous y essayer sur un Québécois, choisissez-le petit et chétif. “On s’en tabarnak” (on s’en fout).

A melhor ilustração de como o québécois usa esses termos está no filme Bon cop bad cop, especialmente nessa cena aqui:

domingo, setembro 13

Québec, QC

Agora entendo o porquê de tanta gente optar por viver em Ville de Québec, ou Quebec City para os anglófonos. A cidade é pra lá de encantadora…

Só para ficar mais fácil de entender: sim, nós moramos no Québec, mas na província do Québec, na cidade de Montréal. Ville de Québec é uma cidade da província de Québec, daí é como Rio de Janeiro, RJ: Québec, QC.

Estivemos lá ontem, com os amigos Flávio e Márcia. Que lugar lindo! A cidade é cheia de história, fundada em 1608 (é uma das mais antigas da América do Norte) e, principalmente, é super bem conservada. Um lugar cheio de “cantinhos”, para onde quer que a gente olhe tem algo bonito para fotografar. Em 1985, Québec foi declarada Patrimônio Histórico pela Unesco.

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Todas as fotos podem ser vistas aqui.

terça-feira, setembro 1

Vai ao ginecologista? Boa sorte…

 

chá de ca[1]..

 

Foram três horas de espera, isso depois de ter esperado desde abril (quando marquei o rendez-vous) pra ser atendida por um ginecologista.

A consulta foi conseguida via encaminhamento do nosso médico de família (da Clínica Zina-Santé, que ainda está aberta para novos pacientes). Na época, expliquei pra ele que tinha passado por um procedimento de cauterização em dezembro, ainda no Brasil e que, conforme recomendação de meu médico, precisava de follow-up.

(Observação: quando há algum histórico mais ou menos importante, vale a pena pedir ao médico, ainda no Brasil, que ele redija um report do que foi o problema e quais os procedimentos seguidos; o meu médico de família aqui pediu e foi minha mãe quem teve de ir atrás).

Muito bem, depois de ouvir mil histórias locais de horror (e cinco meses depois), lá fui eu ao consultório do ginecologista. Antes de ir, claro, tentei dar aquela ligada básica pra saber se o rendez-vous estava confirmado. Só consegui ouvir a voz da secretária eletrônica que, gentilmente, me informava: “se for uma urgência, dirija-se ao hospital”. Simpático, não é mesmo?

Lá chegando, descobri que estava no lugar errado. E a culpa nem era de meu analfabetismo em francês, viu? O endereço estava errado na guia de encaminhamento. Mas era pertinho, pas de problème

Uma vez no balcão da recepcionista, já senti o drama. Uma senhora estava tendo um surto psicótico pelo atraso de três horas no atendimento. Falei pra moça que, se ela achasse melhor, eu poderia remarcar pra outro dia, já que minha consulta não era pra nada muito urgente. “Hoje ou depois, tanto faz, é sempre assim. Daqui a duas horas a senhora será atendida”, respondeu a criatura. Isso foi às 16 horas.

Saquei meu livro da bolsa e, às 19h, fui chamada pro consultório. Fiquei lá dentro 10 minutos. Não fui pesada, medida, não teve questionário algum. Talvez seja porque meu prontuário iria ser encaminhado pro médico de família, não sei.

E na hora da verdade… Não rola vinho nem jantar à luz de velas… A gente tira a roupa (parte de baixo só, porque eles não examinam os seios e nem mencionam o assunto) na frente do médico mesmo, sem banheiro, aventalzinho azul nem nada. Como eu já tinha sido alertada por uma amiga sobre o sistema trash aplicado aqui, fui de saia. Aliás, como não tem nem paninho pra pôr no colo, a quem precisar ir ao gineco de calça comprida, recomendo levar uma echarpe, uma camiseta, qualquer coisa, pra não ter de ficar olhando a cara do médico enquanto ele, digamos, olha lá dentro de você.

Depois da boa notícia de que meu colo uterino está lindo, perguntei sobre o resultado do papanicolau. O médico (que, verdade seja dita, ao menos foi bastante delicado) respondeu que em um mês (!) o exame ficaria pronto e, se houvesse algum problema, ele entraria em contato, ou seja, no news, good news.