segunda-feira, fevereiro 22

Bom pra cachorro

É incrível a quantidade de e-mails que recebo de gente curiosa por saber como proteger a pata do bichinho no inverno, quando chegarem por aqui.

Como contamos em post anterior, logo de cara compramos umas botinhas bem bacanas pro Leopoldo. Elas foram necessárias por um bom tempo, mas nesse segundo inverno começamos a fazer as coisas um pouquinho diferente.

Vimos que os cães “nativos” saem super numa boa sem botas, isso em temperaturas bem extremas. Tentamos então, aos poucos e com muito cuidado, ver ate onde ele agüentaria confortavelmente. Resultado: hoje, até mais ou menos uma temperatura negativa em 10 graus, ele segura a onda tranquilamente sem botas.

Mas não é só o frio que ameaça o bicho. O grande problema são os produtos usados pra derreter a neve: grudados na pata, se o cachorro os lambe, pode morrer de envenenamento. Várias pessoas e vários pet shops (em frances, animaleries) me indicaram um produto québécois, o Bag Balm. Trata-se de uma pomada que, aplicada nas patas, impede infecções em caso de machucados e, de quebra, gruda na imundície da rua, facilitando a limpeza no retorno do passeio (chegando em casa, limpo a sujeira com lencinhos umedecidos de bebe). O preço fica em torno de 15 dólares.

Um brinquedo muito legal

multipetEsse eu recomendo mesmo pros cachorreiros: quando Jeanne e Pedro nos visitaram, trouxeram de presente pro Poldo uma vaca falante de pelúcia da marca Multipet. Juro que, depois de garrafa pet, esse é o brinquedo que o cachorro mais adorou em todos os tempos.

Depois do falecimento da vaca, meses depois, comprei um outro pelo e-bay, dessa vez um lindo demoninho, com tridente e tudo, que Leopoldo curtiu, mas não tanto, porque esse não fala nada (a gente esperava ao menos umas risadas diabólicas)...

Se alguém souber onde encontrar produtos Multipet em Montreal, me avise, por favor. Procurei em vários locais mas so achei na internet mesmo....

terça-feira, fevereiro 9

Onde acho melissinha com pochete?

Quando era adolescente no Rio de Janeiro, a onda era roubar cabelo das meninas. Eu, linda, jovem, com os cabelos virgens e longos, era um atrativo. O que fazíamos, eu e as colegas, era enrolar as madeixas em coque pra nao facilitar. Uma outra vez, tambem no Rio, meu pai chegou em casa com a metade do salário. Teve sorte : os bandidos toparam dividir com ele a grana do assalto.

Depois de nos cansarmos dessa vida ridícula de nao poder andar de bolsa, de ter de carregar no bolso um dinheirinho pro ladrão, fomos para Campo Grande, MS. Lá era bem mais calmo, mas muito longe da paz e sossego desejados. Estouraram meu carro pra pegar o rádio. Depois, estouraram o do Zé, e lá se foi outro aparelho de som. Para o nosso terceiro, um Pioneer bonitão, a saída foi produzir um disfarce. O Zé pegou a carcaça de um toca-fitas velho, cortou a frente, pôs uns velcros e, num passe de mágica, o rádio bonzão virava uma coisinha digna de pena. E ficamos nos sentindo os espertos, enganadores de ladrão...

Na partida pro Canada, evitamos divulgar até os derradeiros dias que estávamos indo pro exterior. O receio maior era a informação chegar em ouvidos de malfeitores que calculassem que “esses manés” teriam dólares para serem roubados.

Aqui em Montreal, ontem, fui vítima de furto. Foi tudo muito rápido e ninguém viu nada, nem o segurança imbecil na minha frente. Numa loja pequena, deixei minha mochila pesada no meu pé. Dei uns três passos pra pegar uma outra coisa, fiz uma pergunta pro vendedor e, quando me virei, a mochila nao estava mais lá. O lado bom foi que, antes de sair, tirei o notebook da bolsa, alem de ter esquecido de pegar o ipod. O lado ruim/péssimo é que estava voltando do último dia da gravação de um filme, e o cartão de memória com todo o áudio tava lá.

Sim, chamei a policia e tudo mais. Meus documentos foram encontrados horas depois e, de importante, só se foi o cartão de memória mesmo. Preparei um cartaz e pus na redondeza: recompensa de 30 dólares pra quem encontrá-lo. Enquanto copiava meus panfletos, uma senhora comentou que o filho dela teve a janela do carro quebrada no centro de Montreal e levaram tudo de dentro: eletrônicos, cds, etc. Segundo ela, foi culpa do rapaz: isso era para aprender a não deixar coisas de valor no carro.

O pior de tudo é perceber que a cultura da violência esta em formação por aqui, ou seja, a cultura em que o primeiro suspeito e culpado por qualquer ato de violência é a vitima. Por exemplo: juro que vou mandar tomar no c*@#$ o próximo que me recomendar tomar mais cuidado com as minhas coisas. Pergunto: sera que tenho de fazer como no Rio, somente sair de pochete, com meus pertences literalmente amarrados a mim? Me recuso a tomar no ombro a culpa que pertence aos dois malditos e infelizes cretinos que me roubaram.

Outro exemplo: a ex-esposa de um grande amigo nosso foi assaltada (não roubada como eu; assaltada mesmo) em uma estação de metrô no centro da cidade, aqui mesmo, em Montreal. Nao suficiente, apanhou dos imbecis da gangue, que machucaram rosto, corpo e alma, tudo de uma vez só. Contando o caso pros conhecidos, nao consigo quantificar quantas pessoas me perguntaram: “mas era de noite?”, “mas ela reagiu?”, “mas ela tava vestida com coisas de luxo?”. Nisso tudo está implícito um perverso julgamento: o de ela somente poderia ter sido vítima do seu descuido, da sua desatenção; a idéia de que a violência existe porque nós, manés, permitimos que ela nos atinja.

É a cultura da esperteza que chega ao norte: se voce não for esperto, automaticamente passa a ser um manezão. E daqui a pouco, só um mané vai ter janelas sem grade; só um mané pra deixar os filhos irem pra escola sozinhos; só uma mané vai andar desacompanhada pelas ruas da cidade, “dando mole”, como diz o povo. É a mesma logica que põe a culpa do estupro na mini-saia da menina.

E a pergunta de uma milhão de dólares fica: e daqui eu vou pra onde?